O SONHO DE ISMAR
Por Rosane
Pamplona (*)
Há muitos e muitos anos, vivia na cidade de Damasco, na
Síria, um pobre homem chamado Ismar. Ismar sempre lutara para ganhar a vida
dignamente; não tendo podido estudar e aprender uma profissão sujeitava-se a
qualquer espécie de serviço: limpava jardins, carregava pedras, buscava água,
sempre com boa vontade, trabalhando sem se queixar. Com o passar dos anos,
porém, Ismar começou a sentir-se cansado e preocupado. Durante a vida toda só
trabalhara e nunca conseguira juntar qualquer dinheiro, nenhuma economia que
pudesse socorrê-lo em caso de necessidade. A única coisa que tinha de seu era
uma casa, herança antiga da família.
A casa ficava num bairro pobre de Damasco, no fim de uma
rua esburacada. Era feita de pedras e protegida por um portãozinho de madeira.
Atrás da casa corria um riacho; à beira do riacho crescia uma velha figueira e
era à sombra dessa figueira que Ismar costumava descansar depois de trabalhar a
manhã toda. Ali ele refletia sobre sua vida e se perguntava o que seria dele
quando a velhice não lhe permitisse mais o esforço físico. Estou ficando velho,
pensava, não tenho filhos que me possam sustentar. Será que Alá, meu pai
divino, vai me abandonar?
Sempre assim cismando, um dia Ismar dormiu, recostado à
figueira, e teve um sonho; sonhou que estava na cidade do Egito. Ele nunca
havia estado realmente no Egito, mas no sonho passeava com desembaraço pela
avenida central da cidade e distinguia perfeitamente os mercadores de tapetes,
os minaretes das mesquitas. Atravessando uma praça, ele dobrava à direita,
descia uma rua estreita, chegava a um rio. Sobre o rio havia uma ponte e
embaixo da ponte - ó maravilha! - um cofre repleto de moedas e jóias
reluzentes!
Quando acordou, Ismar teve certeza de que aquele era o
tesouro que Alá lhe reservara. O sonho tinha sido tão nítido, tão preciso nos
detalhes, não havia engano! Sem pensar em mais nada, ele arrumou sua trouxa e
pôs-se a caminho do Cairo. Era uma longa distância, principalmente para ele,
que ia a pé e sem dinheiro. No entanto, movido pela convicção de encontrar sua
fortuna, Ismar atravessou desertos e vales, rios e florestas, até chegar,
finalmente, exausto e maltrapilho, à cidade que lhe aparecera em sonho. Sua fé, então,
redobrou de vigor, pois o Cairo era exatamente como ele havia sonhado! Ele
reconheceu a avenida principal, os mercadores de tapetes, os minaretes das
mesquitas; chegou à praça, virou à direita, desceu a rua, avistou o rio,
aproximou-se da ponte, mas... no exato lugar em que deveria estar o tesouro,
não havia cofre algum; havia, isso sim, um mendigo mais pobre e maltrapilho que
ele.
Chocado, Ismar deu-se conta da sua loucura! Como pudera
acreditar tão piamente num simples sonho? Que tolo fora! E agora, com que
forças enfrentaria a viagem de volta? Que impulso de fé ou esperança
sustentaria aquela alma tão esvaziada pela decepção? Não, pensou ele. Melhor
será acabar com os meus dias aqui mesmo. Nenhuma esperança me resta. E,
decidido a se afogar, subiu à ponte. Já estava quase se atirando quando sentiu
que alguém o segurava, agarrando sua perna por debaixo da ponte.
Era o mendigo que gritava:
- Hei amigo! Cuidado, você pode morrer! Esse rio é perigoso!
- Ainda bem! - respondeu Ismar - É isso mesmo que desejo:
matar-me.
- Não faça isso. - ponderou o mendigo - Você ainda tem muito
que viver. Escute, desça até aqui e conte-me a sua história. Faça sua última
boa ação, entretendo um miserável como eu. Depois, se quiser, pode se matar!
Ismar hesitou, mas resolveu afinal repartir suas dores com
aquele desconhecido. Contou-lhe o sonho, concluindo:
- Então, no mesmo lugar em que deveria estar o cofre, estava
você... Agora, diga-me, não tenho razão em querer acabar com minha vida?
- Olhe, - exclamou o mendigo - não queria dizer isso, mas
acho que você tem razão. Você foi muito irresponsável, um louco!!! Acreditar
num sonho! E que você sonhou só uma vez? Veja se tem cabimento! Pois fique
sabendo que eu, há cinco anos, tenho o mesmo sonho, que se repete quase todas
as noites. E não é por isso que vou sair correndo atrás do que sonhei.
- E o que você sonha? - perguntou curioso Ismar.
- Escute só: eu sonho que estou na Síria, na cidade de
Damasco, o que já é uma asneira, pois nunca estive na Síria. Estou num bairro
pobre, seguindo por uma rua esburacada. No fim da rua há uma casa de pedra,
protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corre um riacho; à beira
do riacho cresce uma figueira e, dentro dessa figueira, que é oca, há um
tesouro! Não é uma bobagem? Eu é que não sou louco de acreditar em sonhos, não
acha?
Ismar não respondeu. Estava pasmo, pois reconhecera, pela
descrição do mendigo, a sua rua, a sua casa, a sua amada figueira!
Compreendendo os laços do destino, abraçou o mendigo, tomou o caminho de volta
e chegando à sua casa, foi direto à velha árvore, onde o tão sonhado tesouro o
aguardava.
Feliz daquele que sonha e que faz o sonho acontecer!
(*) Rosane Pamplona é professora de literatura,
contadora de histórias e autora de 18 livros.
A história acima foi extraída de Novas Histórias Antigas, ed. Brinque-Book.
Contatos: 11-8405.7512 ou pelo e-mail rosanelpp@yahoo.com.br