A maravilhosa história que segue abaixo foi criada por Cecília de S.C Hernandes durante o curso de formação de professores de yoga para crianças a partir das imagens do quebra cabeça”O Buda”.
Agradecimentos especiais à Artista plástica e professora de yoga Carmen Perez pelas imagens do quebra- cabeça “O Buda”, que foram desenvolvidas especialmente para o Curso de formação do Yoga Com Histórias.
Acesse: www.carmenperez.com.br
O MENINO QUE VEIO DA LUZ
Contam que Amom havia nascido da luz. Chegou com os primeiros raios de sol, de forma tão silenciosa, sem choro, e encantadora, que surpreendeu a todos no castelo com o seu semblante sereno e um sorriso constante estampado em seu rosto.
Havia nele, porém, certa inquietação que aumentava à medida que crescia. Queria muito saber.
Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Quem criou as árvores e toda a natureza?
Quem desenhou as asas das borboletas com tanta beleza?
Quem distribuiu as riquezas?
Como os pássaros conseguem voar?
Quantas luas há no céu?
Como o navio não afunda no mar?
Como as abelhas fazem o mel?
O que faz o vento soprar?
O que leva um homem a matar?
O que fazer para a guerra parar?
E então vinha uma interminável lista de por quês:
Por que as folhas caem?
Por que o inverno é cinza?
Por que não podemos correr no corredor? Corredor não é para correr?
Por que cortando uma minhoca ao meio, cresce outra minhoca de cada metade e, cortando o rabo de um cachorro, não cresce outro cachorro?
Por que uns tem tanto e outros tem tão pouco?
Quando ele começava a perguntar todos do palácio fugiam. Sumiam os guardas, os serviçais e até seus pais não agüentavam tanto interrogatório. E quanto mais perguntador ele ficava mais sozinho também.
E como ele não tinha com quem falar, aprendeu a conversar com os seres da natureza.
Certo dia, quando estava num dos jardins do palácio, surgiu um enorme pássaro Garuda. Ele contou sobre os diversos lugares que havia visitado. Terras longínquas, países exóticos, falou sobre coisas que Amon nem imaginava e o convidou para partir com ele.
Mas é claro que ele queria ir. Era a chance de encontrar as respostas para suas intermináveis perguntas. Amon sentiu um friozinho na barriga, afinal, não conhecia nada além dos muros do palácio. Mas sua vontade de aprender era muito maior e assim que amanheceu partiu com o Garuda. Não sem antes pedir a benção do seu padrinho Sol – o astro rei.
Ao chegarem numa floresta Amon agradeceu e se despediu do pássaro amigo continuando sozinho sua jornada. Procurou a árvore mais antiga, porque talvez fosse a mais sábia e falou com o seu espírito.
- Amiga árvore, tenho muitas perguntas, mas não encontro as respostas para elas. Sei que você é bem velha. Já viveu muitos anos e deve saber muitas coisas. Será que você pode me ajudar a encontrar as respostas? Perguntou Amon
- Claro que sim! Respondeu o Espírito da árvore. O seu problema é que você está procurando pelas respostas no lugar errado.
- Como assim? Falou Amon.
- Você está procurando fora, quando as respostas para todas as suas perguntas estão dentro de você - disse a árvore.
- Não entendo. Como vou encontrar qualquer resposta, se de dentro de mim só saem perguntas? Perguntou novamente Amon.
O Espírito da árvore explicou:- Então, é porque você está muito cheio de perguntas. As perguntas são barulhentas e assustam as respostas. Quando a sua mente estiver mais quieta as respostas sairão do seu esconderijo.
- E como fazer para aquietar a minha mente?
- É preciso treiná-la assim como fazemos com os animais.
Primeiro procure sentar-se confortavelmente em um lugar tranqüilo.
Depois respire profundamente procurando relaxar todo o seu corpo.
Fechar os olhos também ajuda para você não se distrair com a paisagem. Isto poderia instigar novas perguntas.
Muitas perguntas surgirão, procure não conversar com elas.
Quando uma pergunta surgir não fique pensando nela, deixe que ela venha e vá embora mesmo sem resposta.
Isto leva certo tempo. Mas quando todas as perguntas saírem de dentro de você, e se você não as segurá-las, as respostas virão.
As respostas estão escondidas lá no fundo, embaixo de todas as perguntas. Este treinamento chama-se meditação. Disse o sábio espírito da Árvore.
- Quanto tempo isto leva? Perguntou Amon.
- Isto que você acaba de fazer também é uma pergunta. Agora não importa a resposta. Vá! E treine sua mente.
Amon sentiu que pela primeira vez alguém lhe dera uma idéia de como solucionar o seu problema. O seu coração dizia que estava no caminho certo, e partiu pelo mundo em busca de outras pistas.
Sempre que ele podia tentava fazer a tal da meditação para treinar sua mente. Mas geralmente ao invés das respostas, eram as perguntas que saiam de dentro dele, como cobras e lagartos, animais peçonhentos saindo de seus esconderijos.
Mas Amon era determinado. Há algum tempo atrás, já tinha visto um cavalo selvagem ser treinado lá no palácio e lembrou que demorou muito tempo para que ele ficasse manso a ponto de poder ser montado. Talvez, sua mente fosse tão teimosa como aquele cavalo. Por isto insistiria até domá-la.
Muitos anos se passaram e Amon percebia que quanto mais o tempo passava menos perguntas surgiam. Até que num belo dia em que o seu padrinho Sol despontava lá no céu, apreciando o amanhecer, começou a enxergar tudo diferente.
A paisagem era a mesma, mas as cores eram mais vibrantes, o céu mais azul, viu insetos e plantas que nunca havia percebido. Ouviu sons que nunca ouvira antes como o das flores se abrindo, o bater das asas de um beija-flor, o estalar das folhas secando ao sol. Sentiu aromas indescritíveis como o do orvalho da manhã, das algas do rio, dos frutos silvestres.
E neste encantamento ele foi se misturando àquela beleza, e por alguns momentos sentiu-se como se ele próprio fosse o céu, o sol, os insetos, as plantas, o beija-flor, o rio, o orvalho da manhã, como se ele fosse a própria natureza.
Pela primeira vez não havia uma pergunta sequer. Só havia luz! E Amom começou a brilhar e se iluminou como a luz do Sol.
Seu brilho nunca mais se apagou e ele seguiu iluminando tudo e a todos por onde passava.
Cecília de S.C. Hernandes