Era uma vez um monstro. Bem, pelo menos era assim que lhe chamavam desde que nasceu.
E por ser constantemente chamado de monstro, por perceber o medo que todos tinham dele, para se proteger, para proteger os outros de uma possível fúria que é peculiar a qualquer monstro e, finalmente, para encontrar um pouquinho de felicidade, o monstrinho se isolou e foi se esconder cada vez mais no fundo da floresta.
Ah! Outra coisa sobre Monstrinho é que de tanto ele ouvir dizer que sua aparência era horrível e que ele assustaria qualquer um, ele nunca teve coragem de se olhar nos espelhos d’água. Assim, não sabia qual era seu verdadeiro reflexo.
Monstrinho passava seus dias comendo raízes, ervas e frutos, nadando nos lagos e apreciando as mudanças de cores quando o sol ia partindo e a noite ia chegando. Em sua caverna ascendia o fogo para se aquecer.
Sua caverna era bem tranqüila e todos os dias, antes de dormir, ele gostava de brincar de imaginar. Imaginava muitas coisas: que ninguém tinha medo dele, que tinha muitos amigos, que morava em um castelo, que era muito valente e ajudava todos que precisassem. Por fim, Monstrinho se imaginava como um grande herói!
Depois de brincar de imaginar, quando sua mente ficava cansada, Monstrinho gostava de ficar observando o silêncio que surgia dentro dele. Sentia-se em paz. Sentia uma profunda alegria sem nenhum motivo aparente.E era assim que, solitariamente, dia após dia, Monstrinho ia vivendo.
Mas, um dia ele sentiu um silêncio que era muito mais intenso que qualquer outro que já havia sentido. E no seu silêncio, de repente, viu a imagem de uma linda princesa! Ela era prisioneira em alguma caverna daquela imensa floresta.
Monstrinho ficou assustado com sua imaginação, pois aquilo parecia tão real! Mas para sua surpresa, a mesma imagem começou a se repetir todos os dias e de forma cada vez mais nítida.
Então Monstrinho começou a acreditar que aquilo não era uma brincadeira da sua imaginação, que em algum lugar da floresta existia uma princesa precisando de sua ajuda.Sem duvidar, saiu a procurar por todos os lugares da floresta. Monstrinho conversou com os pássaros e com os bichos que nunca o temeram e não demorou muito para saber que realmente era verdade: que uma princesa era prisioneira de um terrível monstro!
Caminhou por dias e noites até chegar ao lugar onde o monstro tinha a princesa como prisioneira. Fechou os olhos e pensou nela, afinal ele sequer sabia o seu nome. Rapidamente um nome veio com o vento até seus ouvidos: Nala.Que nome lindo para uma princesa! Então, ele imaginou um significado para o seu nome: o olhar calmo da manhã.
Foi então que viu o monstro. Era enorme ou, pelo menos, era bem maior que ele! Só então se lembrou que ele também era um monstro e que, afinal, também devia ser assustador.
Foi se aproximando devagar do grande monstro que logo notou a sua presença. Disse-lhe que vinha salvar a princesa Nala, mas o monstro não lhe mostrou nenhuma simpatia. Era noite e os dois não se enxergaram muito bem, mas mesmo assim começaram a terrível briga.
Monstrinho foi descobrindo dentro de si uma força que não sabia existir, pensou que essa seria a força de um grande monstro! E lutou com seu rival durante toda a noite, sem parar. Mas, quando os primeiros raios de sol foram caindo sobre os dois, o monstro levou um enorme susto e saiu correndo. Gritava que estava lutando com um monstro, que monstrinho era horrível, que era nojento, que, se o tivesse visto antes, jamais lutaria com ele!
Embora monstrinho tivesse vencido o monstro ficou muito triste por ouvir novamente palavras que já o haviam magoado tanto em outras ocasiões. No entanto, nem teve tempo de alimentar suas lembranças, pois logo veio surgindo a princesa que queria lhe agradecer. Como era linda! Pensou Monstrinho.
Temendo ser visto pela princesa, Monstrinho pediu para que ela não olhasse para ele e aguardasse a noite para partirem. Temia que ela se assustasse muito com sua presença.
Enquanto esperavam o dia passar e a noite chegar, Monstrinho pediu à princesa que lhe contasse coisas sobre sua vida, para que depois ele pudesse brincar de imaginar. A princesa lhe contou coisas maravilhosas! Falou a respeito das danças, dos bailes, da música que se tocava em seu castelo. Monstrinho ficava só imaginado tudo aquilo. Depois ele lhe contou de sua solidão, de sua caverna. Porém, lembrou-se também de falar das coisas boas: de que conversava com os bichos, dos banhos na lagoa e das muitas coisas que conhecia.
Quando anoiteceu, os dois já eram amigos e juntos eles foram caminhado de volta pela floresta. Após muito caminhar, a princesa pediu para descansar e Monstrinho ficou preocupado: logo nasceria o dia e ele não queria assustá-la com sua aparência horrível. Mas eles estavam tão cansados que encostaram-se a uma árvore e adormeceram.
Acontece que a princesa despertou antes e, quando Monstrinho acordou, ela o mirava com seu olhar calmo da manhã, encantada! Monstrinho não entendeu como a princesa não ficou assustada ao vê-lo!
Como era a primeira vez que ela olhava para ele, só então se lembrou de perguntar seu nome que, aliás, ele também não sabia. Nunca ninguém o havia chamado. Neste momento a princesa o batizou com o nome de Poo, o meigo herói.
Monstrinho - que agora era Poo - sentiu coisas esquisitas dentro de si. Ele não sabia o que era o amor, mas era isso que sentia! A princesa segurou em sua mão e levou-o até o lago para que ele também se enxergasse. Monstrinho tentou resistir, mas a princesa era tão bonita que com sua voz macia lhe convenceu. Afinal se ela não se assustou com ele, não haveria nenhum problema dele mesmo se olhar pela primeira vez.
A princesa disse:
- Veja Poo, como você é lindo!
Poo quase não acreditou na imagem que surgiu no espelho d’água. Dos seus pequenos olhos, duas lágrimas escorreram e ele achou-se lindo!
Lembrou-se de todos aqueles que o haviam expulsado, xingado e chamado de monstro. Poo sorriu porque entendeu enfim que ele não era um monstro, só era diferente!
Neste momento ele sentiu-se muito feliz por ser daquele jeito, pois agora sabia muito bem quem ele era. Tinha até um nome! Era Poo, o meigo herói.
Poo e Nala se olharam e sorriram e, de mãos dadas, continuaram o caminho de volta, pois sabiam que ainda havia muitas coisas para descobrirem juntos.
Namastê
João Soares
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