Yoga com História
 
 

 

Os iogues mirins
Por: Phydia Athayde

Aos poucos minutos para as 3 da tarde, sempre às quartas-feiras, uma Kombi branca despeja crianças, ainda de uniforme, em uma escola de ioga na zona sul paulistana, a Shivalaya, no Brooklin. Não é de hoje que filhos de pais adeptos da milenar prática indiana recebem aulas adaptadas ao público infantil. Alguns colégios particulares oferecem ioga visando aumentar a concentração e baixar a ansiedade dos alunos, não raro estressados pelo excesso de atividades. Pois os iogues mirins da Shivalaya, que usam uniformes remendados de escolas públicas, estão sujeitos a outros tipos de estresse. (Clique na foto ao lado para ver mais imagens)

Recentemente, foram despejados da favela Jardim Edite, aquela que estava no caminho da Ponte Estaiada. Para que a fotogênica obra viária se impusesse, barracos vieram abaixo. Oito centenas de famílias espalharam-se por Paraisópolis, Campo Limpo, Real Parque e outras favelas da região. Por conta do êxodo, alguns deixaram de frequentar o Núcleo Assistencial Irmão Alfredo (Naia), que desde 1982 oferece atividades para crianças carentes – tais como as aulas de ioga. Os que ficaram, chegam e saem da Shivalaya de Kombi todas as quartas-feiras. “Eles adoram”, diz a monitora Marinalva Moura, que os acompanha.

“Apesar de a maioria ter uma vida sofrida, realçamos o quanto são especiais. Eles não são coitadinhos”, defende o professor João Carlos Soares, mais jovem do que seus 44 anos. Ele pratica ioga há quinze e criou um método para crianças. Além de aulas para adultos, mantém um site e dá cursos de Ioga com História para professores.

No saguão da Shivalaya, cinco meninos e seis meninas, entre 6 e 11 anos, depositam os tênis ao pé do escaninho e sobem até o terceiro andar. A sala é ampla, com uma janela de vidro ao fundo, piso de madeira e nenhuma mobília. Em relativo silêncio, pegam, cada um, uma esteira de borracha e estendem. Meninas formam uma fileira, meninos outra. Soares, de bermuda e camiseta, senta-se à frente, de pernas cruzadas, sorri e observa. Quando todos estão na mesma posição, levanta-se, imposta a voz e abre os braços com ênfase teatral.

“Eeeeera uma vez... um imperador!”, diz, ao puxar Henrique dos Santos, de 10 anos, que passa a interpretar o imperador. “Ele era muito velho”, diz Soares, ao que o garoto arqueia as costas, “e procurava um herdeiro para o trono.” Daí por diante, o enredo se desenrola de modo que cada um dos onze pequenos tenha um papel. Soares dá as falas e o personagem da vez as repete. Às vezes uma criança tropeça nas palavras, as demais riem. E a história continua.

“Ping fez o melhor possível, e o melhor possível sempre merece ser coroado”, narra, já próximo do fim da fábula, cuja moral é a sinceridade recompensada. “O que podemos aprender com essa história?”

“A não mentir”, diz uma menina. “A alcançar o que você pode”, completa um garoto. “Às vezes eu faço uma coisa que não dá certo”, emenda o professor, “mas a gente tem de ter...”, e deixa a frase no ar para os pequenos completarem quase em coro, dedinhos para o alto, “perseverança!”

Finda a encenação, começam os movimentos. É hora de tirar as meias e ficar de pé. Soares percebe que Aline Oliveira de Queiroga, de 8 anos, está tristonha. “Tudo bem?”, ela faz que não com a cabeça. “Minha tia morreu.” Silêncio. O movimento proposto é fechar os punhos e, num grito, ao abri-los “jogar pra fora o que a gente não quer: tristeza, medo, tudo de ruim”, orienta o professor. “Aaaaahhhh!!!”, gritam todos.

Em seguida, Soares sugere alongamentos, sempre com referências à fábula recém-contada. “Se o Ping quiser coçar o nariz com o pé, ele consegue?” Mal demonstra o movimento e a criançada executa. “E dá pra coçar com os dois pés?”, propõe em desafio maior. Os menorzinhos do grupo, Anderson Fausto, de 7 anos, e Helen Novaes, de 6, se olham, riem, rolam para trás com os pés bem acima da cabeça.

A brincadeira também é séria. Tanto que, em instantes, todos se levantam para fazer a Saudação ao Sol, uma sequência básica de movimentos da ioga. Algumas etapas têm nome de bichos, “crocodilo”, “cachorro para baixo”, “cachorro para cima”. Soares ordena correções: “Mais perto do chão, Joyce”, “Encaixa o quadril, Henrique”, “Olha pra barriga, Anderson”...

Depois é hora de realizar posições mais acrobáticas, tais como apoiar as pernas sobre os antebraços ou ficar de ponta-cabeça. A orientação é não competir: “Sem olhar pro lado, quem não conseguir tudo bem”. Aliás, o professor instituiu que dizer “eu não consigo” é palavrão. Proibido por lá. “Acredito na força das palavras. Se eles dizem que não conseguem, acabam não conseguindo mesmo”, explica depois.

A aula está quase no fim. Hora de relaxar e meditar. É quando a sala parece ficar repleta de pequenos monges, sentados de olhos fechados e mãos unidas. A música suave e a voz do professor convidam a uma pequena viagem: “Imagine que você é uma sementinha que cresce cada vez mais saudável, mais feliz, mais inteligente”. Um pequeno boceja, outra coça os olhos, os maiores parecem mais concentrados.

No final, Guilherme da Silva, de 7 anos, solta uma lágrima. “Foi por causa da música?” Faz que sim com a cabeça. Soares pede que tente pensar em coisas alegres, e chama a classe a participar: “Quem lembra daquele mantra?” Imediatamente um coro de vozes fininhas inicia a cantar Loka/ Samasta/ Sukhino/ Bhavantu... devagar e ritmado. “E o que significa?”, incita o mestre. Aline corre a traduzir: “Que todas as crianças e pessoas sejam abençoadas”, e abre um sorriso de aluna orgulhosa.

Sentados em círculo, em torno da repórter a quem chamam de “professora”, eles falam sobre ter aulas de ioga. Em comum, o fato de nenhum pai ou conhecido saber do que se tratava até ser informado pelos próprios. E também o fato de terem ensinado muitas das posições para primos, vizinhos e irmãos. “Eu saio daqui mais feliz e calmo, e mais forte também”, garante Guilherme. “Eu fico mais leve”, consegue abstrair a mais velha, Renata Pereira, de 11 anos. “Eu saio calmo”, diz Henrique.

Soares, que não é remunerado pelas aulas, sai visivelmente satisfeito. “A ioga já me fez tão bem que quero que isso chegue nas crianças da favela. Como um sonho mesmo.” Sem a bagunça que se poderia esperar de um grupo de escolares, eles descem as escadas, calçam os tênis velhos e vão embora, de Kombi, até a próxima semana. 

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