A
inspiração mitológica da prática de yoganidrā
Yoganidrā
é uma prática de sono consciente, na qual a atividade corporal é cessada, com o
equilíbrio do sistema sensorial e a presença de um estado de despertamento
interno.
O
nome dessa prática provém do sânscrito ("sono/nidrā produzido pelo
yoga") e pode ser compreendido
mitologia hinduísta. A mitologia, com seus paradoxos, lógica não-convencional
e concretude narrativa, sempre foi uma forma de conhecimento de extrema riqueza
para que possamos refletir sobre nosso ser e nosso mundo de um modo que supere
as limitações de percepção condicionadas por fatores sociais, familiares ou
pessoais.
Conta-nos
a tradição indiana que o universo passa por quatro longas eras temporais.
Existe, nessa sucessão, uma decadência pela qual a lei cósmica (dharma) se manifesta de forma muito
intensa na primeira era e de forma muito frágil na quarta era, resultando,
assim numa queda da capacidade biológica e moral humana, bem como da organização
social e natural. E, ao fim da quarta era, considerada a pior de todas, há o início
de um novo ciclo, inaugurado pela melhor de todas as eras. Entre as eras e os
ciclos, há longos intervalos de "descanso" cósmico, nos quais a matéria
está totalmente dissolvida, sem manifestação de qualquer tipo de forma. Nesses
intervalos, que são chamados de pralaya,
tudo o que existia deixa de existir, restando apenas a latência, isto é, a
virtualidade de um novo existir que retornará com o início da era seguinte.
Relata-se
que, durante o pralaya, o deus
Vishnu, que, por muitos, é visto como o mantenedor do cosmo e protetor de sua
lei, permanece deitado sobre uma serpente de mil cabeças que flutua sobre um
infinito oceano de leite. Seu estado de repouso, a serpente e o oceano
caracterizam a condição de virtualidade das possibilidades infinitas pelas
quais a vida se manifesta. No pralaya,
a vida existe de forma plena, mas não de forma manifesta. Não existe o fenômeno,
o que existe é apenas a essência.
Há
uma deusa que é a responsável pelo estado de sono de Vishnu, assim como pelo
seu despertar: a deusa conhecida como Yoganidrā. É ela quem o faz repousar e é
ela quem o desperta. A figura mitológica
da Yoganidrā é, dessa forma, compreendida como a potência energética que leva o
deus Viṣṇu
à cessação ou à atividade.
Em
síntese, a prática, que hoje chamamos de yoganidrā procura integrar de forma
consciente a potência que nos faz dormir ou despertar e que nos leva da latência
à manifestação. Trata-se, dessa forma, de algo que vai muito além do
relaxamento, trata-se de uma prática de transformação pessoal e de
autoconhecimento.