Yoga com História
 
 

 

A inspiração mitológica da prática de yoganidrā
Por: João Barbosa

A inspiração mitológica da prática de yoganidrā

 

    Yoganidrā é uma prática de sono consciente, na qual a atividade corporal é cessada, com o equilíbrio do sistema sensorial e a presença de um estado de despertamento interno.


   O nome dessa prática provém do sânscrito ("sono/nidrā produzido pelo yoga") e pode ser compreendido  mitologia hinduísta. A mitologia, com seus paradoxos, lógica não-convencional e concretude narrativa, sempre foi uma forma de conhecimento de extrema riqueza para que possamos refletir sobre nosso ser e nosso mundo de um modo que supere as limitações de percepção condicionadas por fatores sociais, familiares ou pessoais.


     Conta-nos a tradição indiana que o universo passa por quatro longas eras temporais. Existe, nessa sucessão, uma decadência pela qual a lei cósmica (dharma) se manifesta de forma muito intensa na primeira era e de forma muito frágil na quarta era, resultando, assim numa queda da capacidade biológica e moral humana, bem como da organização social e natural. E, ao fim da quarta era, considerada a pior de todas, há o início de um novo ciclo, inaugurado pela melhor de todas as eras. Entre as eras e os ciclos, há longos intervalos de "descanso" cósmico, nos quais a matéria está totalmente dissolvida, sem manifestação de qualquer tipo de forma. Nesses intervalos, que são chamados de pralaya, tudo o que existia deixa de existir, restando apenas a latência, isto é, a virtualidade de um novo existir que retornará com o início da era seguinte.


    Relata-se que, durante o pralaya, o deus Vishnu, que, por muitos, é visto como o mantenedor do cosmo e protetor de sua lei, permanece deitado sobre uma serpente de mil cabeças que flutua sobre um infinito oceano de leite. Seu estado de repouso, a serpente e o oceano caracterizam a condição de virtualidade das possibilidades infinitas pelas quais a vida se manifesta. No pralaya, a vida existe de forma plena, mas não de forma manifesta. Não existe o fenômeno, o que existe é apenas a essência.


     Há uma deusa que é a responsável pelo estado de sono de Vishnu, assim como pelo seu despertar: a deusa conhecida como Yoganidrā. É ela quem o faz repousar e é ela quem o desperta. A  figura mitológica da Yoganidrā é, dessa forma, compreendida como a potência energética que leva o deus Viṣṇu à cessação ou à atividade.


     Em síntese, a prática, que hoje chamamos de yoganidrā procura integrar de forma consciente a potência que nos faz dormir ou despertar e que nos leva da latência à manifestação. Trata-se, dessa forma, de algo que vai muito além do relaxamento, trata-se de uma prática de transformação pessoal e de autoconhecimento.

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